Por favor me responda o que mudou em nosso país após 23 anos.
Sobre a Atual Vergonha de Ser Brasileiro
Projeto de Constituição atribuído a Capistrano de Abreu:
Art. 1º. Todo Brasileiro deve ter vergonha na cara
Parágrafo Único: Revogam-se as disposições em contrário.
Que vergonha, meu Deus! ser brasileiro e estar crucificado num cruzeiro erguido num monte de corrupção.
Antes nos matavam de pancada e choque nas celas da subversão, agora nos matam de vergonha e fome exibindo estatísticas na mão.
Estão zombando de mim. Não acredito. Debocham a viva voz e por escrito. É abrir jornal, lá vem desgosto. Cada notícia. - É um vídeo-tapa no rosto.
Cada vez é mais difícil ser brasileiro.
Cada vez é mais difícil ser cavalo desse Exu perverso nesse desgovernado terreiro.
Nunca vi tamanho abuso. Estou confuso, obtuso, com a razão em parafuso: a honestidade saiu de moda, a honra caiu de uso.
De hora em hora a coisa piora: arruinado o passado, comprometido o presente vai-se o futuro à penhora. Me lembra antiga história daquele índio Atahualpa ante Pizarro – o invasor enchendo de ouro a balança do seu conquistador com a ilusão de o seduzir e conquistar seu amor.
Este é um país esquisito: onde o ministro se demite negando a demissão e os discursos são inflados pelos ventos da inflação. Valei-nos Santo Cabral nessa avessa calmaria em forma de recessão e na tempestade da fome ensinai-me – a navegação.
Este é o país do diz e do desdiz, onde o dito é desmentido no mesmo instante em que é dito. Não há lingüista e erudito que apure o sentido inscrito nesse discurso invertido. Aqui
O dito é o não dito e já ninguém pergunta se será o Benedito
Aqui o discurso se trunca: O sim, é não; O não, talvez; O talvez- nunca.
Eis o sinal dos tempos:
Este país produtor que tanto mais produz tanto mais é devedor.
Um país exportador que quanto mais exporta mais importante se torna como país – mau pagador.
E, no entanto, há quem julgue que somos um bloco alegre do “Comigo Ningém Pode”, quando somos um país de cornos mansos cuja história vai dar bode.
Dar bode, já que nunca deu bolo, tão prometido pros pobres em meio a festas e alarde, onde quem partiu, repartiu, ficou com a maior parte deixando pobre o Brasil.
Eis uma situação totalmente pervertida:
- uma nação que é rica consegue ficar falida,
- o ouro brota no peito mas mendigamos com a mão,
- uma nação encarcerada doa a chave ao carcereiro para ficar na prisão.
Cada povo tem o governo que merece? Ou cada povo tem os ladrões a que enriquece?
Cada povo tem os ricos que o enobrecem? Ou cada povo tem os pulhas que o empobrecem?
O fato é que cada vez mais se entristece esse povo num rosário de contas e promessas, num sobe e desce de prantos e preces.
Ce n’est pas um pays sérieux! Já dizia o general.
O que somos, afinal?
Um país pererê? Folclórico? Tropical? Misturando morte tropical? Misturando morte a carnaval?
- Um povo de degradados? - Filhos de degredados largados no litoral? – Um povo-macunaíma sem caráter nacional?
Ou somos um conto de fardas, um engano fabuloso narrado e um menino bobo – história de chapeuzinho já na barriga do lobo?
- Um povo de degradados? - Filhos de degredados largados no litoral? – Um povo-macunaíma sem caráter nacional?
Ou somos um conto de fardas, um engano fabuloso narrado e um menino bobo – história de chapeuzinho já na barriga do lobo?
Por que só nos contos de fada os pobres fracos vencem os ricos ogres?
Por que os pobres ricos dos países pobres não se aliam aos pobres dos países pobres para enfrentar os ricos mais ricos mesmo quando nos países pobres?
Espelho, espelho meu! Há um país mais perdido que o meu?
Espelho, espelho meu! Há um governo mais omisso que o meu?
Espelho, espelho meu! Há um povo mais passivo que o meu?
E o espelho respondeu algo que se perdeu entre o inferno que padeço e o desencanto do céu.
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Affonso Romano de Sant’Ana
Poeta, crítico, professor de Literatura Brasileira na Puc-Rio.